Sobre a solidão de quem enfrenta um transtorno alimentar

Nossa relação com a comida e com o próprio corpo é sobre a forma como habitamos a nossa existência. O corpo não é algo que temos; o corpo é o que somos. É através dele que sentimos, percebemos e nos abrimos para o outro.

Quando o transtorno alimentar se instala, essa abertura se fecha. O corpo, que deveria ser a nossa casa no mundo, passa a ser vivido como um inimigo a ser controlado, vigiado e reduzido.

E habitamos hoje um tempo culturalmente perverso.

Vivemos o império do corpo subtraído. A extrema magreza voltou a ser o imperativo, mas agora travestida de discurso de “saúde”, “disciplina” e “otimização”. Vemos uma medicação em massa que promete apagar o apetite como quem desliga uma chave de luz, sem qualquer escuta para o que essa fome busca dizer. Trata-se a fome, essa expressão ancestral da nossa força de vida e da nossa vulnerabilidade, como uma falha a ser corrigida.

Para quem enfrenta um transtorno alimentar, o cenário contemporâneo é um eco ensurdecedor dos seus piores fantasmas. A cultura atual faz algo devastador: ela valida e premia o sintoma. A mídia e os discursos vigilantes aplaudem a privação e transformam o encolhimento do corpo em virtude moral. A voz do transtorno, que exige o desaparecimento do sujeito, encontra na sociedade a sua confirmação perfeita.

É aí que a dor atinge o seu cume e se converte em radical solidão.

A solidão do transtorno alimentar não é a falta de pessoas ao redor. É a experiência de desterro. É o isolamento de estar em uma mesa com quem se ama, mas sentir-se num deserto, porque a mente está sequestrada pelo cálculo, pelo medo e pela culpa.

É o abismo de receber um elogio caloroso pela perda de peso no exato instante em que a alma está em colapso.

A pessoa que sofre percebe que o mundo a aplaude na exata proporção em que ela desaparece. É a dor de não ser vista em sua angústia, porque a sociedade só consegue enxergar a superfície da imagem.

A fome no transtorno alimentar não é de comida: é de presença, de permissão para existir. Recuperar-se não é alcançar um peso, é fazer do próprio corpo um lugar seguro. Afinal, um novo olhar só começa quando paramos de nos combater... por dentro.