O alimento é o primeiro veículo de linguagem e afeto que recebemos do outro.
Quando olhamos para a clínica dos transtornos alimentares, percebemos rapidamente que as soluções simples e puramente comportamentais falham. E falham porque reduzem o ato de comer a uma métrica fria. Na era da performance, das metas de proteína e dos corpos intangíveis gerados por inteligência artificial, fomos nos distanciando da história que a comida carrega.
Ao longo da nossa constituição, o alimento é o primeiro veículo de linguagem e afeto que recebemos do outro.
Na infância, sentar-se à mesa é ser introduzido à cultura, às leis do convívio, ao limite e à partilha, aquilo que chamamos de comensalidade. Cozinhar e comer juntos é o que nos humaniza. Como dizia o antropólogo Claude Lévi-Strauss, a cozinha de uma sociedade é uma linguagem na qual ela traduz sua própria estrutura.
Mas o que acontece quando essa comensalidade entra em crise? Quando comer se torna um ato solitário, desprovido de narrativa e de afeto, regulado apenas por telas e regras rígidas de controle?
Nos sintomas alimentares mais graves, seja no silêncio da recusa ou no turbilhão do excesso, o que se expressa não é uma simples falta de controle ou uma vaidade extrema. É um grito silencioso. É a tentativa (muito precária, mas a única possível naquele momento) de lidar com o que transborda, com as dores da nossa relação com o outro, com as mudanças inevitáveis do corpo que emergem de forma avassaladora na adolescência.
A clínica que humaniza e que de fato transforma não busca apenas corrigir um comportamento adoecido. Ela busca escutar. Busca convidar o sujeito a colocar em palavras a sua dor, investigando que lugar a comida e o corpo ocupam na sua história.
Precisamos resgatar o afeto onde a métrica tentou se impor. Precisamos dar voz ao sofrimento para que, quem sabe, o sujeito possa finalmente encontrar um lugar de reconciliação e um gozo mais pacífico com a vida e com o seu próprio corpo.