Onde nos habita a nossa paz no prato?
Se pararmos para silenciar o ruído do mundo e olhar para a nossa mesa, percebemos que o ato mais vital da nossa existência acabou sendo, sutilmente, silenciado. Comer, que sempre foi um gesto de presença e comunhão, muitas vezes se transformou em um lugar de dúvida e julgamento. Substituímos o aroma da cozinha pela pressa dos rótulos, e o sussurro da nossa própria fome pelo eco de regras que vêm de fora.
Criamos, sem perceber, um tempo onde o alimento foi despido de sua poesia. O bolo de cenoura que perfuma a tarde virou uma equação de carboidratos; o pão quente com manteiga passou a ser olhado com desconfiança. Olhamos para o prato com o coração acelerado, esquecendo que a comida carrega identidade, afeto e história.
Onde foi que guardamos o nosso direito de apenas sentir o prazer de comer?
Se olharmos para a nossa existência, o ato de comer é o nosso diálogo mais íntimo com a vida. Nós acolhemos o mundo dentro de nós através do alimento. É um fenômeno que desperta os sentidos, evoca memórias de infância, cria pontes entre as pessoas. Quando reduzimos o prato a “pode” ou “não pode”, distanciamos a nossa mente do nosso corpo. Deixamos de escutar a sabedoria que já habita em nós.
Sentir prazer ao comer não é um erro de cálculo, nem algo que precisamos “compensar” depois. O prazer é o afeto do corpo recebendo a vida. É o que nos nutre por dentro, na alma, onde nenhuma tabela consegue alcançar.
Como nutricionista, meu olhar se volta para além do que está no prato; ele se volta para quem está sentado diante dele. Entendo que cuidar da sua alimentação é, antes de tudo, proteger o seu direito de viver em paz. Meu papel não é ditar regras ou apontar caminhos rígidos, mas caminhar ao seu lado para que você possa redescobrir a sabedoria do seu próprio corpo. É lembrar que a verdadeira nutrição nasce na ciência, mas só floresce quando abraça a sua história, as suas memórias e o seu bem-estar.
Que a gente possa, aos poucos, desarmar os pensamentos na hora da refeição. E que a mesa volte a ser o que sempre foi: um cais, um lugar de pausa, afeto e celebração.