Quando o comer vira esconderijo, o corpo pede para voltar pra casa.
“Eu tô querendo viver, não sobreviver." Quando essa frase ecoa no espaço clínico como foi por aqui, ela me parece que não é apenas um desejo, mas a denúncia de uma existência que se tornou exílio. No transtorno da compulsão alimentar, o mundo deixa de ser um horizonte de possibilidades para se tornar um espaço de ameaça, onde o corpo não é mais morada, mas uma estrutura que apenas suporta o impacto.
Sobreviver, aqui, é a urgência do tempo que se fecha. É o instante em que a consciência se estreita e o alimento surge como o único anteparo possível contra o vazio insuportável ou o excesso de realidade. Sobreviver é um esforço exaustivo de manter-se em pé enquanto o próprio sentido da vida parece escorrer pelas fendas da rotina. É o modo de estar no mundo anestesiado, onde o volume da comida tenta silenciar o ruído de uma angústia que ainda não encontra tradução.
Neste cenário, a nutrição não ocupa o lugar do controle ou da regra, isso seria apenas mais uma forma de sobrevivência rígida. O meu papel, enquanto nutricionista, é ajudar a reconstruir a ponte entre o ser e o comer. A nutrição entra como o cuidado com a base material da existência: ao estabilizarmos o corpo biológico e regularmos os sinais de fome e saciedade, por exemplo, oferecemos ao sujeito um chão mais firme para que ele possa, enfim, olhar para suas questões emocionais sem o desespero de um terrorismo nutricional.
Viver exige a coragem da abertura. É o movimento de retomar a posse da própria sensibilidade, permitindo que a comida volte a ser nutrição e prazer, e não mais um esconderijo. Quando reivindicamos o "viver", estamos pedindo para habitar o tempo de forma presente. A intervenção nutricional nos transtornos alimentares é, fundamentalmente, um ato de hospitalidade: ensinar o paciente a receber o alimento sem medo, para que ele possa voltar a receber a própria vida.
O cuidado não nasce da restrição, mas da liberdade de ser; sentindo assim, quem sabe, o mundo, sem precisar se devorar para suportá-lo.