Tecer o silêncio até que ele se torne a melodia do nosso próprio chão
O início de um ano costuma ser um convite ao ruído. Somos empurrados por uma correnteza de novas metas, promessas de produtividade e a sensação de que precisamos acelerar para não ficarmos para trás. Mas o verdadeiro começo talvez more no gesto oposto: o de silenciar. Escolher uma vida com menos estímulos e menos telas não é uma fuga, mas um retorno para casa, para o único lugar onde a vida de fato acontece: o aqui.
Quando vivemos mediados pelo brilho constante do celular, o tempo se torna fragmentado. Deixamos de habitar as horas para apenas reagir a elas. A ansiedade de estar sempre informado, de ter uma opinião sobre o próximo acontecimento ou de "caber" dentro de comportamentos que as redes sociais ditam como ideais, nos drena a substância. Essa necessidade de fluxo constante é tóxica porque nos torna estrangeiros de nossa própria experiência. Tornamo-nos vigilantes do mundo lá fora enquanto nossa vida interior silencia por falta de cuidado.
Decidir pela presença é um ato de soberania. É entender que a atenção é o nosso bem mais precioso e que, onde ela pousa, ali a nossa vida floresce. Ao reduzir as notificações e os excessos, o tempo volta a ter peso e textura. Começamos a notar a luz que entra pela janela, o ritmo da própria respiração e a profundidade dos encontros que não precisam de registro fotográfico para existir.
Não precisamos seguir o compasso acelerado do mundo. Podemos, e devemos, determinar nossos próprios ritmos. A vida não precisa ser um som constante e agudo; ela pode ser composta de pausas, de adágios, de momentos de silêncio absoluto. Que este ano seja a oportunidade de recuperar o comando da nossa percepção e de ouvir, com clareza, a melodia única que só a nossa existência, em sua calma e inteireza, é capaz de produzir.