Das ausências que comem

O que se põe à mesa quando a mesa é o mundo?

Muito antes do primeiro gesto, o alimento já é linguagem, vertigem, uma clareira onde o ser tenta se ancorar. Não se trata do que entra pela boca, mas do que transborda no avesso do peito.

A relação com o que nos nutre é um território sem mapa, lugar puramente subjetivo, onde a fome e a falta dançam no mesmo compasso.

Ali habita o rascunho de uma história, o peso do que não foi dito, a tentativa quase poética de dar contorno ao vazio.

O olhar externo chega sem pedir licença.

Vem disfarçado de elogio essa aprovação que aprisiona ou de julgamento velado na ponta dos olhos.

“Como você mudou”, dizem, sem notar o abismo.

Ignoram que o visível é apenas a margem; que tentar decifrar a alma pelo que ela consome é o equívoco de quem só enxerga a moldura e esquece a tela.

Conscientizar é um ato de interrupção.

É suspender a pressa do diagnóstico casual, a leviandade da opinião que invade a pele do outro.

Cada existência é um fenômeno único, uma costura sensível entre o que se mostra e o que se esconde.

Respeitar essa relação é, antes de tudo, silenciar o ruído alheio.

É compreender que o corpo não é um objeto a ser corrigido pelo mundo, mas o próprio modo como a vida se faz presença.