O que essa dor está tentando proteger em mim?

"O transtorno alimentar não é um defeito que eu preciso eliminar. É algo que eu percebo do meu funcionamento." Ouvi essa afirmação e ecoou profundamente em mim. O transtorno alimentar não é um defeito que eu precise eliminar; é uma percepção do meu próprio funcionamento. Sinto que ressignificar essa frase é também alterar o campo de batalha. Por muito tempo, fomos ensinados a enxergar nossa relação com a comida como uma máquina quebrada. Se há restrição, descontrole ou medo, logo supomos um erro de sistema que deve ser extirpado, deletado ou corrigido. Contudo, a verdade é que o corpo não é um objeto que possuímos, mas sim quem somos. E nada em nós nasce do vazio.

Quando eu paro de tratar o transtorno como um inimigo externo e começo a olhá-lo como um "modo de funcionar", a pergunta muda. Eu deixo de me perguntar "o que há de errado comigo?" para investigar "o que essa dor está tentando proteger em mim?".

Muitas vezes, a rigidez com o prato ou o silêncio da fome foram as únicas ferramentas que encontramos para dar ordem a um mundo que parecia caótico. O comportamento alimentar não é um defeito de fabricação; é uma resposta, uma tentativa, ainda que dolorosa, de equilíbrio existencial. É uma linguagem que o corpo usa quando as palavras não dão conta.

Na nutrição, o processo não deveria ser sobre alcançar um peso ideal ou seguir uma regra perfeita, mas sobre recuperar a capacidade de sentir. É sair da cabeça, que julga e calcula, e voltar para a pele, que percebe e vive. É entender que a comida é o fio que nos liga ao mundo, e que reabilitar essa relação exige curiosidade em vez de punição. Recuperar-se não é apagar quem você foi enquanto sofria. É integrar essa parte da sua história, entendendo que aquele funcionamento rígido foi um pedido de socorro da sua própria vida. Quem sabe assim, quando a gente para de tentar "se consertar", sobra espaço para, finalmente, se habitar. Com paciência, com presença e com o tempo que o corpo pede para reaprender a confiar.